A Escada Rolante I

Maria Luiza gostava de estar sempre alerta, ser prestativa e ajudar a quem precisa. Ela tinha destinado ir até a Cruz Vermelha naquela tarde para fazer uma pequena doação às vítimas do terremoto do Haiti… Tinha… Quando aquela senhora idosa pediu que ela a acompanhasse até a rodoviária de Porto Alegre, porque tinha medo das escadas rolantes, Maria Luiza aceitou o pedido, mas riu por dentro, achando divertido aquele medo bobo. Entretanto, respeitou as angústias daquela anciã, afinal, ela já tinha idade avançada e estava rumando para o enterro do filho…

“Como é mesmo o seu nome?”, perguntou Maria Luiza, quando chegavam à estação do metrô. Elas recém tinham se conhecido na lotação e embora Maria Luiza já tivesse dito seu nome, ainda não sabia o nome de quem estava ajudando. “Honorina”. “E do que foi mesmo que faleceu seu filho?” Diante desta pergunta, Dona Honorina demonstrou tristeza, respirou profundamente, e só então respondeu: “Foi uma tragédia e tanto… Onofre tinha a saúde de um touro. Ele estava ajudando a salvar um dos vizinhos atingidos pela enchente, quando, no desespero do afogamento, o vizinho se agarrou a ele e então… ambos se foram…”

“Puxa, que fatalidade!”, emendou Maria Luiza, quando chegavam ao guichê. Dona Honorina desviou os sentidos da perda do filho para comprar as passagens. Maria Luiza fez menção de pagar, mas a outra disse: “deixe por minha conta, tu estás indo na rodoviária a meu pedido, é justo que eu pague…”

Maria Luiza concordou, mas percebeu o atrapalhamento da senhora idosa em pegar o dinheiro. Então correu o olho no fundo da bolsa da outra e, como não era boba, atinou que aquela senhora também estava com a grana curta.

Na roleta, Maria Luiza teve literalmente que empurrar Dona Honorina para que as duas pudessem adentrar no hall da estação. Dona Honorina estava mais empacada que mula manca quando vê assombração! Era medo, pensou Maria Luiza, um medo estúpido da escada rolante que se aproximava… E se esta mulher resolver fazer um fiasco na escada? E se ela passar mal? Para tentar amenizar a situação, Maria Luiza pergunta: “Quem sabe vamos pela escada que não é rolante?!” E imediatamente veio a resposta: “seria bom, minha filha”.

Então ambas contornaram o que para Dona Honorina era a “boca do monstro” e seguiram mais um pouco, até o final do hall da estação.

Mas, desgraça pouca é bobagem… A escada tradicional estava em manutenção: havia uns homens com uniforme azul mexendo em cimento e manuseando diversas lajotas… “E agora?”, perguntou Dona Honorina, olhos esbugalhados, as mãos suando frio, olhando o que para ela era como a boca de um terrível monstro… “Agora não tem jeito”, foi a resposta de Maria Luiza. “Eu te ajudo! A descida terá mesmo de ser pela escada rolante…”

Crônica escrita por Gervásio Santana de Freitas

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